Crise no Governo
(publicado na 3ª Antologia da AJEL, ano 2008)
Por Gabriel Steinbach
01 de agosto de 2008, parte 1 de 4
—Havia um clima de expectativa quando perguntei ao Sr. Smith o que ocorrera na entrada do prédio. Não era com toda a certeza um problema que envolvesse a mim, mas sim aos meus circunstantes, o que me consternava dignamente. Horas antes me alertaram para o fato de que a Srta. Mônica viria ao encontro dos fatos, querendo tirar do virtual as provas da realidade.
Não havia emboscada, a meu ver. Quando o governo quer aprovar essas coisas, o alarme toca e tudo vai a toque de caixa, atropelando sensíveis, moralistas e idealistas.
Perguntei ao senador Amido sobre o panorama que se desenhava em seu partido.
E ele:
—Todos estão com o governo nessa medida provisória.
Mas, ainda pensando sobre a crise que ocorreu na semana passada e que se havia amainado rachando parte da base do governo, perguntei se a medida não era por demais delicada à sociedade para haver tamanha coesão. Para mim, soava mais como uma manobra para apagar o evento pelo qual Mônica iria passar, agora no momento em que ela entrava no Salão Amarelo do Senado.
—Não, senador Fonte. Há realmente, ainda que o senhor não acredite nisto, uma verdadeira arregimentação em torno da matéria. Amanhã mesmo, parto para uma comissão em Buenos Aires, na qual iremos discutir os pontos nevrálgicos.
—Ainda há isso?
—Sim. Por que não? Claro está para alguns que isso se trata de uma mera conveniência política, pois não queremos provocar rupturas econômicas por julgamentos morais ou estéticos.
—Não o entendi? Como a estética pode interferir numa trama dessas? A Mônica não está envolvida nela; está? Todos, à boca pequena, comentam o envolvimento dela com a indústria...
—Agora quem não o está entendendo sou eu. Nós estamos falando de quase 1 bilhão de pessoas e o senhor me refere a história da Mônica... Isso já é um capítulo à parte desse livro. Aliás, sequer ela entra no livro. Vai mesmo ficar na gaveta (risos).
—Não acredito que o senhor possa desdenhar de tamanha artimanha desenhada para minar as forças honestas de nosso país.
—O que sei é que neste momento tudo tende a ser amenidade, neste furacão jurídico e econômico que estamos construindo. A população está mais preocupada com a ojeriza contra os vizinhos do que com uma vadia armamentista.
—É. Desse ponto de vista... É. Não havia visto por um prisma mais longo. O povo parece ter abandonado a cordialidade de nossos ancestrais em troca de uma compreensão ignóbil dos vizinhos. Aliás, deveriam ter maus sentimentos contra os americanos, mas, ao invés disso, os adoram.
—Fonte (risos), você não deve ser tão rígido! Provavelmente, amanhã mesmo, a sociedade tenha outro sentimento para externar. Cada evento desencadeia uma nova linha de processos e eventos, que desencadeia mais outra e outra... Temos de nos pôr na cadeia de eventos mais adequada para o bem de nossas famílias. No máximo, podemos controlar a linha macro de eventos, através da qual eliminamos imprevistos e controlamos 70% dos resultados.
—Amido, você é muito técnico. Não consigo entendê-lo com essas metáforas geométricas.
—Fonte, amigo, isso é só outra maneira de dizer que...
Nesta hora lembrei-me do noticiário de ontem à noite que relatava o caso da Mônica com o senador. O presidente da indústria de armas negou qualquer conhecimento que pudesse levar a polícia a reconhecer sua influência no caso das “Licitações de Papai Noel”.
—Bem, é um inconveniente, pelo menos?!
—Creio que não. Aliás, estaria o senhor interessado em participar dos trabalhos da comissão de alinhamento? O trabalho já está praticamente pronto, e o holofote que este cargo oferece é perto dos melhores.
—Vou pensar e em 30 min. eu lhe retorno. Voltando um pouco ao assunto, a Comissão de Alinhamento resolveu por manter o mesmo número de cargos na Argentina?
—Sim. Vai haver até um acréscimo tendo em vista amainar as animosidades na fusão dos dois Estados. Os “divisionistas-do-atraso” têm nos chamado de ''os elefantes verdes'', dizendo que as funções mais importantes dentro da máquina administrativa ficarão na mão de brasileiros.
—"Divisionistas-do-atraso"?
—É. Foi a alcunha que ouvi mais cedo (risos). Talvez saia na imprensa conservadora por esses dias. São um grupo de jovens da província, estudantes de Teoria da Greve e de Estratégias do Distúrbio... (risos)
—Amido e sua língua navalha...
—Fonte, nesses últimos 30 anos, o que nós vimos faz-nos perder completamente a esperança num futuro certo e pacífico. Já dizia o presidente McGregor dos Estados Unidos naquele período de transição entre o Cristianismo e o Islã, logo depois da "Raid-Moon": "o homem é o senhor da justiça quando fala por Khomenei."
—Não. Quem disse isso foi o George, Secretário de Estado.
—Bem, não importa, ou importa, mas está corrigido.
—Você vai encontrar-se com a Mônica?
—Não. Vou evitá-la até que esse assunto desapareça.
—Mas você disse...
—...desapareça da cabeça dela (risos).
—Certamente (risos). Vou encontrar-me com Zenóbio para discutir as emendas à Constituição que ele propõe.
—Certo. Até mais.
Ao caminhar pelo corredor que liga meu escritório à parte central da galeria de exposição do Salão Amarelo, pensei no que seria factível para argumentar em prol das emendas. É bem verdade que o processo de anexação, ou alinhamento (como o governo determinou), da ex-república Argentina consumia muito de nosso tempo. Iria mesmo preparar, já de imediato, o meu material e acelerar os trabalhos preparatórios.
Mônica, a essa altura da hora, já deveria encontrar-se junto da imprensa para tentar dar explicações sobre um assunto, como disse Amido, esquecido e engavetado. Comecei a conjecturar se isso não era uma postura de primeira dama do exibicionismo. Afinal, nessas horas, como sabemos, o certo é ficar quieto e cuidar do jardim de casa.
Mônica era uma mulher difícil às vezes, e tinha certa falta de compromisso para com sua família. Isso a deixou distante e odienta. Nenhum parente seu lhe suportava e isso a empurrou para a vida profissional. Na verdade ela tinha saído do eixo profissional para atuar nas sombras dos negócios e do poder político, fazendo jogos escusos. Isso começara no fim de nosso caso, o que me dava, crescentemente, medo de que ela me envolvesse em alguma história ou tentasse chatagear-me para conseguir algum dinheiro.
Embora senador, meus recursos são parcos. Não tenho certas habilidades para contar dinheiro e muitas vezes entro no cheque especial. É algo de que sinto vergonha, pois na minha época existia um charme em dizer que se era ruim em matemática... Os tempos mudaram um bocado e eu não acompanhei a mudança.
Amido, frequentemente, falava coisas que me intrigavam sobre mim mesmo. Eu conseguia reunir a borra ideológica comunista, um fragmento na verdade da minha convivência com meu bisavô, estudioso de história antiga, com os novos tempos de Fiatismo.
Chego ao Salão Amarelo. Cruzo-o e entro no Corredor Vermelho. Vejo no relógio a hora de partir. Pego o terminal 02 para ir à minha casa no Acre. O dia de amanhã fazia promessa de ser cansativo para além do que este corpo mole e flácido poderia suportar. É melhor descansar...
Por Gabriel Steinbach
01 de agosto de 2008, parte 1 de 4
—Havia um clima de expectativa quando perguntei ao Sr. Smith o que ocorrera na entrada do prédio. Não era com toda a certeza um problema que envolvesse a mim, mas sim aos meus circunstantes, o que me consternava dignamente. Horas antes me alertaram para o fato de que a Srta. Mônica viria ao encontro dos fatos, querendo tirar do virtual as provas da realidade.
Não havia emboscada, a meu ver. Quando o governo quer aprovar essas coisas, o alarme toca e tudo vai a toque de caixa, atropelando sensíveis, moralistas e idealistas.
Perguntei ao senador Amido sobre o panorama que se desenhava em seu partido.
E ele:
—Todos estão com o governo nessa medida provisória.
Mas, ainda pensando sobre a crise que ocorreu na semana passada e que se havia amainado rachando parte da base do governo, perguntei se a medida não era por demais delicada à sociedade para haver tamanha coesão. Para mim, soava mais como uma manobra para apagar o evento pelo qual Mônica iria passar, agora no momento em que ela entrava no Salão Amarelo do Senado.
—Não, senador Fonte. Há realmente, ainda que o senhor não acredite nisto, uma verdadeira arregimentação em torno da matéria. Amanhã mesmo, parto para uma comissão em Buenos Aires, na qual iremos discutir os pontos nevrálgicos.
—Ainda há isso?
—Sim. Por que não? Claro está para alguns que isso se trata de uma mera conveniência política, pois não queremos provocar rupturas econômicas por julgamentos morais ou estéticos.
—Não o entendi? Como a estética pode interferir numa trama dessas? A Mônica não está envolvida nela; está? Todos, à boca pequena, comentam o envolvimento dela com a indústria...
—Agora quem não o está entendendo sou eu. Nós estamos falando de quase 1 bilhão de pessoas e o senhor me refere a história da Mônica... Isso já é um capítulo à parte desse livro. Aliás, sequer ela entra no livro. Vai mesmo ficar na gaveta (risos).
—Não acredito que o senhor possa desdenhar de tamanha artimanha desenhada para minar as forças honestas de nosso país.
—O que sei é que neste momento tudo tende a ser amenidade, neste furacão jurídico e econômico que estamos construindo. A população está mais preocupada com a ojeriza contra os vizinhos do que com uma vadia armamentista.
—É. Desse ponto de vista... É. Não havia visto por um prisma mais longo. O povo parece ter abandonado a cordialidade de nossos ancestrais em troca de uma compreensão ignóbil dos vizinhos. Aliás, deveriam ter maus sentimentos contra os americanos, mas, ao invés disso, os adoram.
—Fonte (risos), você não deve ser tão rígido! Provavelmente, amanhã mesmo, a sociedade tenha outro sentimento para externar. Cada evento desencadeia uma nova linha de processos e eventos, que desencadeia mais outra e outra... Temos de nos pôr na cadeia de eventos mais adequada para o bem de nossas famílias. No máximo, podemos controlar a linha macro de eventos, através da qual eliminamos imprevistos e controlamos 70% dos resultados.
—Amido, você é muito técnico. Não consigo entendê-lo com essas metáforas geométricas.
—Fonte, amigo, isso é só outra maneira de dizer que...
Nesta hora lembrei-me do noticiário de ontem à noite que relatava o caso da Mônica com o senador. O presidente da indústria de armas negou qualquer conhecimento que pudesse levar a polícia a reconhecer sua influência no caso das “Licitações de Papai Noel”.
—Bem, é um inconveniente, pelo menos?!
—Creio que não. Aliás, estaria o senhor interessado em participar dos trabalhos da comissão de alinhamento? O trabalho já está praticamente pronto, e o holofote que este cargo oferece é perto dos melhores.
—Vou pensar e em 30 min. eu lhe retorno. Voltando um pouco ao assunto, a Comissão de Alinhamento resolveu por manter o mesmo número de cargos na Argentina?
—Sim. Vai haver até um acréscimo tendo em vista amainar as animosidades na fusão dos dois Estados. Os “divisionistas-do-atraso” têm nos chamado de ''os elefantes verdes'', dizendo que as funções mais importantes dentro da máquina administrativa ficarão na mão de brasileiros.
—"Divisionistas-do-atraso"?
—É. Foi a alcunha que ouvi mais cedo (risos). Talvez saia na imprensa conservadora por esses dias. São um grupo de jovens da província, estudantes de Teoria da Greve e de Estratégias do Distúrbio... (risos)
—Amido e sua língua navalha...
—Fonte, nesses últimos 30 anos, o que nós vimos faz-nos perder completamente a esperança num futuro certo e pacífico. Já dizia o presidente McGregor dos Estados Unidos naquele período de transição entre o Cristianismo e o Islã, logo depois da "Raid-Moon": "o homem é o senhor da justiça quando fala por Khomenei."
—Não. Quem disse isso foi o George, Secretário de Estado.
—Bem, não importa, ou importa, mas está corrigido.
—Você vai encontrar-se com a Mônica?
—Não. Vou evitá-la até que esse assunto desapareça.
—Mas você disse...
—...desapareça da cabeça dela (risos).
—Certamente (risos). Vou encontrar-me com Zenóbio para discutir as emendas à Constituição que ele propõe.
—Certo. Até mais.
Ao caminhar pelo corredor que liga meu escritório à parte central da galeria de exposição do Salão Amarelo, pensei no que seria factível para argumentar em prol das emendas. É bem verdade que o processo de anexação, ou alinhamento (como o governo determinou), da ex-república Argentina consumia muito de nosso tempo. Iria mesmo preparar, já de imediato, o meu material e acelerar os trabalhos preparatórios.
Mônica, a essa altura da hora, já deveria encontrar-se junto da imprensa para tentar dar explicações sobre um assunto, como disse Amido, esquecido e engavetado. Comecei a conjecturar se isso não era uma postura de primeira dama do exibicionismo. Afinal, nessas horas, como sabemos, o certo é ficar quieto e cuidar do jardim de casa.
Mônica era uma mulher difícil às vezes, e tinha certa falta de compromisso para com sua família. Isso a deixou distante e odienta. Nenhum parente seu lhe suportava e isso a empurrou para a vida profissional. Na verdade ela tinha saído do eixo profissional para atuar nas sombras dos negócios e do poder político, fazendo jogos escusos. Isso começara no fim de nosso caso, o que me dava, crescentemente, medo de que ela me envolvesse em alguma história ou tentasse chatagear-me para conseguir algum dinheiro.
Embora senador, meus recursos são parcos. Não tenho certas habilidades para contar dinheiro e muitas vezes entro no cheque especial. É algo de que sinto vergonha, pois na minha época existia um charme em dizer que se era ruim em matemática... Os tempos mudaram um bocado e eu não acompanhei a mudança.
Amido, frequentemente, falava coisas que me intrigavam sobre mim mesmo. Eu conseguia reunir a borra ideológica comunista, um fragmento na verdade da minha convivência com meu bisavô, estudioso de história antiga, com os novos tempos de Fiatismo.
Chego ao Salão Amarelo. Cruzo-o e entro no Corredor Vermelho. Vejo no relógio a hora de partir. Pego o terminal 02 para ir à minha casa no Acre. O dia de amanhã fazia promessa de ser cansativo para além do que este corpo mole e flácido poderia suportar. É melhor descansar...




