Existe uma quantidade grande de textos e poesias que disporei assim que contratar uma pessoa para separá-los e postá-los. São aproximadamente 600 páginas de textos que serão postadas aqui em breve.

Thursday, August 09, 2007

O Doce


O DOCE

Minha doce e emplumada moça que brilha como sol no olho do amante. Tal é a paixão que me arrebata, e tua fronte me põe no lugar dos deslumbrados como o vão que chora vento no espaço entre as paredes. O golpe de ar que sobe incontidamente pela garganta e espanta as misérias, semeando o broto da vida e a ansiedade por ti. Mas quem é esta sensação que se encarna em forma de gente para sorver a minha atenção, senão é ela moça bonita de forma complexa, alongada e bela como o tremular do sol no chão calmo do mar. Minha volta de bicicleta pelas ruas da imaginação, por entre vontades e afirmações, é esbater da vida que se projeta e floresce qual o doce na língua ao te tocar. Confirmado o passeio de cores e de ternura em tua volta, meus nervos, suores e acertos são frangalhos diante dos diques de solidão que se entremeiam no mundo, contra cuja força corre devagar no mel de boa vontade da aparecida atmosfera que deixa aos brutos, meigos; aos meigos, corajosos; aos fortes, incapazes. Das palmas de mão sobra-me desejo com a força daqueles que vibram o escapar da sorte. A energia pulsa da coluna aos cotovelos, e deles à ponta dos dedos dando por testemunha a envergonhada face do homem de amante.



Gabriel Steinbach

Junho de 2006

O Podre


O PODRE

Ontem na madrugada, pude constatar que precisava de mais uma bebida forte. Enquanto eu olhava para a cara daqueles idiotas úteis, todos com suas crenças de inteligência e de sabedoria de botequim, peguei o copo de cachaça e o entornei de uma só vez para assim enxergar aqueles pândegos em dobro e com muita sorte dormir ali mesmo. Muita fumaça circulava pelo bar, sujeira, e um atendente cretino que havia passado léguas de distância de qualquer escola. Talvez até tivesse sido filho de uma lata de lixo, visto que com tais hábitos apenas os ratos se lhe equiparavam. Era uma verdadeira porcaria. E eu no topo de minha humildade cristã, estava ali há pouco tempo querendo convertê-los a civilização do amor ao próximo. Mais outro copo de cachaça. Olho em volta e com a vista embaciada já me vai sendo mais concuspicente as vagabundas que por ali pirulitavam. Na certa não havia chorume mais fedido do que aquele. Certas de que o esgoto que lhes acolheria era aquele em estava toda aquela pocilga social e suas verminoses e lombrigas abdominais. Mais um copo de cachaça. Este já não sentia mais a língua. Havia misturado àquela intragável bebida com pimenta e algo me ocorrera na mente e estômago. Ia, portanto, do nono copo em frente e as estultices daquela gente maravilhosa de botequim, base de sustentação de umas nulidades artísticas de tv, cujo talento em grande extensão e desenrolar consistia em lubrificar o próprio rabo com os produtores das emissoras. Mais outro copo de cachaça. Pego a pimenta daquele bar virulento, cultura de pulgas e bezerros da mediocridade, e encaçapo naquele melaço de carne, que de tão cozinhada e quase podre despertava-me ânsias e angustias da infância. Melo na batata, ou o que seja aquela formação quase viva, e engulo mastigando calmamente como se o que estivesse a comer fosse o cérebro de um destes vermes alcoolizados, cuja esperança era esperar um passado melhor. O concerto da vista me aponta só para a desgraça daquela podridão, qual clichê –mais um copo de cachaça– que enrosca na desvirtude daquele ambiente impurificado. Piso de azulejo. Parede de azulejo. Moscas em plena e fétida madrugada. A conversa é alta e aborda os temas mais imundos que conheço, da burrice pura e simples –mais um copo de cachaça– até à solidarização da ignorância. Dou mais um passeio com a vista e percebo que a rua está deserta, exceto pelo caminhão de lixo que começa a passar bem à minha testa, incensando toda aquela espelunca e curral de escroques com um cheiro mais ameno e agradável do lixo da vizinhança. Aqueles dejetos, no entanto e felizmente, pareciam-me ser dos lugares mais ricos, pois recendiam a iogurte podre e à carne light.

Fico ali de pé e riste. Arrepiado até a cruz que penduro no pescoço à espera dum milagre da boa educação. Tenso e arrepiado permaneço e quedo no canto com um copo de cachaça de uma lado e minha arma do outro, pendurada entre minhas axilas como nos filmes dos estrangeiros. Passam dois vagabundos e três trabalhadores do caminhão de lixo. Olham-nos como se fossemos a pior das espécies naquela cidade cretina. Não resisto à tamanha petulância e virulência infantilizada e logo, de imediato, projeto a minha arma cromada para a fronte do imbecil. O espanto deveria se geral, mas o barulho e o fedor torpedeavam a todos. Poucos me olharam a mim com alguma coragem infame ou ironia maltrapilha. Enfim, a vontade de meu dedo ainda era mais fraca do que a vontade continuar vendo aquela cidade nos aspectos mais vis e elegantes. Quase sentei a falange no rabo fétido e imprestável daquele servidor dos ricos, desgraçado e jogado ao status de coisa nenhuma. Mas o que faria sem um olhar temido para cima de mim neste dia de sola? Precisava um pouco disso: bebida, fedor, e uma raiva apontada para mim. Assim teria com o que me preocupar ao sair por aí. Quem me mata? Quem me pega? Não sei se faço isso por prazer ou por vingança, mesmo sabendo que essa mosca adulta não me faria coisa alguma, visto que tem uns que só sabem ser subalternos e nada mais. Dão-lhes uma atividade ou uma força pra frente e nada fazem, pois são dotados do conservadorismo da humilhação. Guardo a minha vingança cromada na cintura e carregada com amor. O bar permanece como se as coisas fossem tão naturais que o tédio quase nos impele a uma arruaça ou uma confusão sem fim por uma mulher depravada. Resta-me mais uns goles nesta cachaça e mais um pouco de pimenta.

Fico duas horas sem pensar. Já são muito antes de amanhecer e minha cabeça torna-se imune a qualquer álcool. Não surpreendentemente, chega aquele político que mantém umas relações tais com alguém muito próximo do diabo. Não sei o porquê de o sujeito vir em pessoa para cá. Fitei-o nos olhos, mas o sujeito era seguro e parecia conhecer o lugar. Veio e entrou como se nos freqüentasse há muito. Foi aos fundos. Um rapazola maior o esperava ao carro e distante como se mantivesse uma parede de influência intencional daquele curral de micróbios sociais. Não sou do tipo de ter umas visões ou coisa e tal. Mas senti aquele arrepio de haveria de manter-me mais atento no mundo, talvez um reconhecimento devido no mundo da escória. Aguardei.

Passado pouco tempo...

Gabriel Steinbach
Escrito em Julho de 2006






Figueira

FIGUEIRA
Figueira era um garoto impetuoso, seguro de si! Convivia com vários amigos. Leva um choque ao saber que tudo aquilo que sua família possuíra não era realidade, à medida que não lhe permitiria concluir seus estudos médios e dar prosseguimento à herança e ao enlevamento da história familiar. Figueira, que se achava bonito e super-inteligente, mas nunca tinha arranjado namorada e, tampouco, boas notas, porque sua mente era mal compreendida, achavam a sua mãe e ele, preparava-se para o curso de odontologia numa grande universidade, pois sua mãe lhe encucara isso. Agora, como num sopro de vento repentino, ele se enquadrava e rotulava-se; a falta de dinheiro fizera transformá-lo num menino confundido, perdido entre as mais variadas classes nomeadas. Classes essas que não mais as enxergava com distanciamento de supermenino. E outras, aquelas ($), que de tão longe lhe arrepiavam os cabelos lisos.

Lembrava ele de que um dia vivera a vida como os verdadeiros playboys. E sentira a necessidade de conhecer uma garota a sua altura. Há mister de bom garbo e imbuída de toda uma elegância finda, a que fora costumado. Não era de esperar-se outra coisa, dado que, com uma educação daquelas, tudo se tornaria o mais leve sopro de agrado para aquele corpo bem acostumado.

Completava uma idade de responsabilidade, e de presente ganhara a verdade. Uma recepção de vida adulta? Comemorava agora seu desprendimento com o passado, o qual não lhe servira para mais nada, apenas para passado, lembranças por que, seu relaxante noturno, entre sonhos relaxava. E no dia-a-dia corria atrás com suas peripécias imaturas.

Ficou um sujeito que jaz taciturno, moribundo e vadio. Desiludido e insatisfeito. Por quê? Explico! Preso num novo setor de humanos, uma classe média iludida que se achava em posição. Não há mulher que o suporte para com as suas exigências (nunca declinadas às suas parceiras) nem o satisfaça, a não ser, as muito finas, as quais de vez em vez o percebem graças às unhas sujas de pomada, no posto de gasolina onde trabalha. Pomada que com muito esforço ele se dignava a comprar para amenizar seus problemas psíquicos –pululavam na pele. Sem força para manter uma postura, ele torna-se agora um indivíduo apático: não ri, não chora, não canta, não tem amigos nem reações de sentimento. Sempre evitava qualquer contacto com os parentes, poucos, mas sempre atentos à sua vida, o que muito o irritava. Fizera um muito para ser esquecido, mas qualquer conduta chamava à atenção de seus familiares; até mesmo pensara em suicídio, ato que ele renegava, dado que uma coisa dessas traria toda atenção dos parentes, no mínimo! Ficava então tentando morrer em vida, não demonstrava nenhuma expressão facial, sempre de rosto quieto. Pensava em arranjar uma mulher sem modos? mas que juntos ajudariam um ao outro? –nunca! O que ele teria de bom a oferecer a ela sem dinheiro!? Sua educação não o permitia. E tentar fazer um curso universitário que reputava baixo, ele, nunca! Tinha feito amigos na infância, ricos e eruditos, e na hipótese de reencontrá-los todos bem de vida, preferia trabalhar num posto do subúrbio, economizando um resto de dinheiro, na esperança de com um dinheiro lauto poder retomar sua infância de mentira. Em tudo, ser esquecido e acompanhar a vitória dos outros eram suas grandes e únicas diversões.

Lá ia Figueira. Mudara-se para uma cidade do interior –fria. Assim, de casacos ele se sumia. Para ir ao trabalho era sempre pontual, nunca havia sido reclamado ou reclamar algo a seu chefe –lembre-se de que não chamar a atenção alheia fazia parte, agora, do escopo de sua vida.

Numa crise econômica, Figueira teve de ser demitido, e com isso, logo pensou em todas as economias que tinha feito. As usaria para financiar um projeto, não! Para pagar as contas de casa e sobreviver, não! Tudo era muito incerto, com uma crise dessas, não se sabe quando iria acabar. E Figueira pegou todo o dinheiro, colocou-o num saco, e partiu embora. Com três dias nos ombros, não agüentava de fome, pensou em usar um pouco do dinheiro que acumulara para fazer um lanchezinho. Não! Se em três dias ele fraquejasse. O que seria das próximas semanas? Firme, fitava a vista nos baldes de lixo e executara o que pensou..., pois tinha uma educação austera e disciplinada. Passados cinco meses, o lixo e o esquecimento fizeram de Figueira um mendigo acomodado. Agora já não gastava o dinheiro em hipótese alguma; sentira-se, como na infância, rico. Tinha um montante de dinheiro que invejavam os outros (se soubessem). Mas repetia sempre em voz: que não gasta o dinheiro para não ficar pobre; e levou esse verso por cinco anos para junto dele ao túmulo.

E Figueira morreu, sossegado e sem remorsos, num acidente, que ele mesmo provocara, um acidente perfeito de que não houvesse chance alguma de sobrevivência ou debilitamento. Do dinheiro economizado, ele deixou para seu irmão, o mais novo, o qual ele achara ter uma vida semelhante à sua, mas com o porém dos sonhos da velha mãe serem maiores do que os sonhos das classes altas. Ah! Mas ele teve o cuidado de o dinheiro chegar às mãos de sua mãe, incólume, ou seja, nunca que ela cogitaria ter vindo das mãos dele.

E morre Figueira, sem rastro de personalidade, sem história mal contada, sem brigas, separações e desafetos. Como o golpe de vento repentino que levou junto com seus sonhos, sua personalidade, esperança, e todas as pequenas peças que compõem a vida humana. Vai-se sem grandes pompas, principalmente por não ter concretizado os devaneios da mãe ou dado continuidade ao passado que de tão belo enjoa e desagrada.
Gabriel Steinbach
Escrito em julho de 2003