Existe uma quantidade grande de textos e poesias que disporei assim que contratar uma pessoa para separá-los e postá-los. São aproximadamente 600 páginas de textos que serão postadas aqui em breve.

Thursday, August 09, 2007

Figueira

FIGUEIRA
Figueira era um garoto impetuoso, seguro de si! Convivia com vários amigos. Leva um choque ao saber que tudo aquilo que sua família possuíra não era realidade, à medida que não lhe permitiria concluir seus estudos médios e dar prosseguimento à herança e ao enlevamento da história familiar. Figueira, que se achava bonito e super-inteligente, mas nunca tinha arranjado namorada e, tampouco, boas notas, porque sua mente era mal compreendida, achavam a sua mãe e ele, preparava-se para o curso de odontologia numa grande universidade, pois sua mãe lhe encucara isso. Agora, como num sopro de vento repentino, ele se enquadrava e rotulava-se; a falta de dinheiro fizera transformá-lo num menino confundido, perdido entre as mais variadas classes nomeadas. Classes essas que não mais as enxergava com distanciamento de supermenino. E outras, aquelas ($), que de tão longe lhe arrepiavam os cabelos lisos.

Lembrava ele de que um dia vivera a vida como os verdadeiros playboys. E sentira a necessidade de conhecer uma garota a sua altura. Há mister de bom garbo e imbuída de toda uma elegância finda, a que fora costumado. Não era de esperar-se outra coisa, dado que, com uma educação daquelas, tudo se tornaria o mais leve sopro de agrado para aquele corpo bem acostumado.

Completava uma idade de responsabilidade, e de presente ganhara a verdade. Uma recepção de vida adulta? Comemorava agora seu desprendimento com o passado, o qual não lhe servira para mais nada, apenas para passado, lembranças por que, seu relaxante noturno, entre sonhos relaxava. E no dia-a-dia corria atrás com suas peripécias imaturas.

Ficou um sujeito que jaz taciturno, moribundo e vadio. Desiludido e insatisfeito. Por quê? Explico! Preso num novo setor de humanos, uma classe média iludida que se achava em posição. Não há mulher que o suporte para com as suas exigências (nunca declinadas às suas parceiras) nem o satisfaça, a não ser, as muito finas, as quais de vez em vez o percebem graças às unhas sujas de pomada, no posto de gasolina onde trabalha. Pomada que com muito esforço ele se dignava a comprar para amenizar seus problemas psíquicos –pululavam na pele. Sem força para manter uma postura, ele torna-se agora um indivíduo apático: não ri, não chora, não canta, não tem amigos nem reações de sentimento. Sempre evitava qualquer contacto com os parentes, poucos, mas sempre atentos à sua vida, o que muito o irritava. Fizera um muito para ser esquecido, mas qualquer conduta chamava à atenção de seus familiares; até mesmo pensara em suicídio, ato que ele renegava, dado que uma coisa dessas traria toda atenção dos parentes, no mínimo! Ficava então tentando morrer em vida, não demonstrava nenhuma expressão facial, sempre de rosto quieto. Pensava em arranjar uma mulher sem modos? mas que juntos ajudariam um ao outro? –nunca! O que ele teria de bom a oferecer a ela sem dinheiro!? Sua educação não o permitia. E tentar fazer um curso universitário que reputava baixo, ele, nunca! Tinha feito amigos na infância, ricos e eruditos, e na hipótese de reencontrá-los todos bem de vida, preferia trabalhar num posto do subúrbio, economizando um resto de dinheiro, na esperança de com um dinheiro lauto poder retomar sua infância de mentira. Em tudo, ser esquecido e acompanhar a vitória dos outros eram suas grandes e únicas diversões.

Lá ia Figueira. Mudara-se para uma cidade do interior –fria. Assim, de casacos ele se sumia. Para ir ao trabalho era sempre pontual, nunca havia sido reclamado ou reclamar algo a seu chefe –lembre-se de que não chamar a atenção alheia fazia parte, agora, do escopo de sua vida.

Numa crise econômica, Figueira teve de ser demitido, e com isso, logo pensou em todas as economias que tinha feito. As usaria para financiar um projeto, não! Para pagar as contas de casa e sobreviver, não! Tudo era muito incerto, com uma crise dessas, não se sabe quando iria acabar. E Figueira pegou todo o dinheiro, colocou-o num saco, e partiu embora. Com três dias nos ombros, não agüentava de fome, pensou em usar um pouco do dinheiro que acumulara para fazer um lanchezinho. Não! Se em três dias ele fraquejasse. O que seria das próximas semanas? Firme, fitava a vista nos baldes de lixo e executara o que pensou..., pois tinha uma educação austera e disciplinada. Passados cinco meses, o lixo e o esquecimento fizeram de Figueira um mendigo acomodado. Agora já não gastava o dinheiro em hipótese alguma; sentira-se, como na infância, rico. Tinha um montante de dinheiro que invejavam os outros (se soubessem). Mas repetia sempre em voz: que não gasta o dinheiro para não ficar pobre; e levou esse verso por cinco anos para junto dele ao túmulo.

E Figueira morreu, sossegado e sem remorsos, num acidente, que ele mesmo provocara, um acidente perfeito de que não houvesse chance alguma de sobrevivência ou debilitamento. Do dinheiro economizado, ele deixou para seu irmão, o mais novo, o qual ele achara ter uma vida semelhante à sua, mas com o porém dos sonhos da velha mãe serem maiores do que os sonhos das classes altas. Ah! Mas ele teve o cuidado de o dinheiro chegar às mãos de sua mãe, incólume, ou seja, nunca que ela cogitaria ter vindo das mãos dele.

E morre Figueira, sem rastro de personalidade, sem história mal contada, sem brigas, separações e desafetos. Como o golpe de vento repentino que levou junto com seus sonhos, sua personalidade, esperança, e todas as pequenas peças que compõem a vida humana. Vai-se sem grandes pompas, principalmente por não ter concretizado os devaneios da mãe ou dado continuidade ao passado que de tão belo enjoa e desagrada.
Gabriel Steinbach
Escrito em julho de 2003

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