Existe uma quantidade grande de textos e poesias que disporei assim que contratar uma pessoa para separá-los e postá-los. São aproximadamente 600 páginas de textos que serão postadas aqui em breve.

Thursday, August 09, 2007

O Podre


O PODRE

Ontem na madrugada, pude constatar que precisava de mais uma bebida forte. Enquanto eu olhava para a cara daqueles idiotas úteis, todos com suas crenças de inteligência e de sabedoria de botequim, peguei o copo de cachaça e o entornei de uma só vez para assim enxergar aqueles pândegos em dobro e com muita sorte dormir ali mesmo. Muita fumaça circulava pelo bar, sujeira, e um atendente cretino que havia passado léguas de distância de qualquer escola. Talvez até tivesse sido filho de uma lata de lixo, visto que com tais hábitos apenas os ratos se lhe equiparavam. Era uma verdadeira porcaria. E eu no topo de minha humildade cristã, estava ali há pouco tempo querendo convertê-los a civilização do amor ao próximo. Mais outro copo de cachaça. Olho em volta e com a vista embaciada já me vai sendo mais concuspicente as vagabundas que por ali pirulitavam. Na certa não havia chorume mais fedido do que aquele. Certas de que o esgoto que lhes acolheria era aquele em estava toda aquela pocilga social e suas verminoses e lombrigas abdominais. Mais um copo de cachaça. Este já não sentia mais a língua. Havia misturado àquela intragável bebida com pimenta e algo me ocorrera na mente e estômago. Ia, portanto, do nono copo em frente e as estultices daquela gente maravilhosa de botequim, base de sustentação de umas nulidades artísticas de tv, cujo talento em grande extensão e desenrolar consistia em lubrificar o próprio rabo com os produtores das emissoras. Mais outro copo de cachaça. Pego a pimenta daquele bar virulento, cultura de pulgas e bezerros da mediocridade, e encaçapo naquele melaço de carne, que de tão cozinhada e quase podre despertava-me ânsias e angustias da infância. Melo na batata, ou o que seja aquela formação quase viva, e engulo mastigando calmamente como se o que estivesse a comer fosse o cérebro de um destes vermes alcoolizados, cuja esperança era esperar um passado melhor. O concerto da vista me aponta só para a desgraça daquela podridão, qual clichê –mais um copo de cachaça– que enrosca na desvirtude daquele ambiente impurificado. Piso de azulejo. Parede de azulejo. Moscas em plena e fétida madrugada. A conversa é alta e aborda os temas mais imundos que conheço, da burrice pura e simples –mais um copo de cachaça– até à solidarização da ignorância. Dou mais um passeio com a vista e percebo que a rua está deserta, exceto pelo caminhão de lixo que começa a passar bem à minha testa, incensando toda aquela espelunca e curral de escroques com um cheiro mais ameno e agradável do lixo da vizinhança. Aqueles dejetos, no entanto e felizmente, pareciam-me ser dos lugares mais ricos, pois recendiam a iogurte podre e à carne light.

Fico ali de pé e riste. Arrepiado até a cruz que penduro no pescoço à espera dum milagre da boa educação. Tenso e arrepiado permaneço e quedo no canto com um copo de cachaça de uma lado e minha arma do outro, pendurada entre minhas axilas como nos filmes dos estrangeiros. Passam dois vagabundos e três trabalhadores do caminhão de lixo. Olham-nos como se fossemos a pior das espécies naquela cidade cretina. Não resisto à tamanha petulância e virulência infantilizada e logo, de imediato, projeto a minha arma cromada para a fronte do imbecil. O espanto deveria se geral, mas o barulho e o fedor torpedeavam a todos. Poucos me olharam a mim com alguma coragem infame ou ironia maltrapilha. Enfim, a vontade de meu dedo ainda era mais fraca do que a vontade continuar vendo aquela cidade nos aspectos mais vis e elegantes. Quase sentei a falange no rabo fétido e imprestável daquele servidor dos ricos, desgraçado e jogado ao status de coisa nenhuma. Mas o que faria sem um olhar temido para cima de mim neste dia de sola? Precisava um pouco disso: bebida, fedor, e uma raiva apontada para mim. Assim teria com o que me preocupar ao sair por aí. Quem me mata? Quem me pega? Não sei se faço isso por prazer ou por vingança, mesmo sabendo que essa mosca adulta não me faria coisa alguma, visto que tem uns que só sabem ser subalternos e nada mais. Dão-lhes uma atividade ou uma força pra frente e nada fazem, pois são dotados do conservadorismo da humilhação. Guardo a minha vingança cromada na cintura e carregada com amor. O bar permanece como se as coisas fossem tão naturais que o tédio quase nos impele a uma arruaça ou uma confusão sem fim por uma mulher depravada. Resta-me mais uns goles nesta cachaça e mais um pouco de pimenta.

Fico duas horas sem pensar. Já são muito antes de amanhecer e minha cabeça torna-se imune a qualquer álcool. Não surpreendentemente, chega aquele político que mantém umas relações tais com alguém muito próximo do diabo. Não sei o porquê de o sujeito vir em pessoa para cá. Fitei-o nos olhos, mas o sujeito era seguro e parecia conhecer o lugar. Veio e entrou como se nos freqüentasse há muito. Foi aos fundos. Um rapazola maior o esperava ao carro e distante como se mantivesse uma parede de influência intencional daquele curral de micróbios sociais. Não sou do tipo de ter umas visões ou coisa e tal. Mas senti aquele arrepio de haveria de manter-me mais atento no mundo, talvez um reconhecimento devido no mundo da escória. Aguardei.

Passado pouco tempo...

Gabriel Steinbach
Escrito em Julho de 2006






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